22 de jul. de 2011

Noites maldormidas dificultam o aprendizado, e a sesta pode ser vilã no vestibular 2012 ou no Enem 2011

RIO - Jae Alfradique, de 16 anos, estuda das 7h às 17h na escola Mopi, na Tijuca. Ao chegar em casa, descansa um pouco e depois retoma o trabalho. Por volta de uma da manhã, às vezes mais tarde até, ela dorme. Ou melhor, tenta dormir. A ansiedade de Jade, que disputa uma vaga no curso de Relações Internacionais, vem tirando o seu sono. Literalmente.
- Eu tinha propensão a ter insônia de vez em quando, e sempre estudei melhor à noite. Tem dias em que vou até 2h da manhã, se estiver no meio de um assunto. Quando me deito, não consigo dormir, a cabeça não para. Penso que deveria estudar mais, que não me dediquei o necessário - conta a menina.
No dia seguinte, ela admite o cansaço, que torna ainda mais difícil absorver o conteúdo das aulas. Essa é apenas uma das consequências de uma noite maldormida, afirma o Fausto Ito, médico com especialidade em sono pela USP. Ele explica que, quando dormimos, a informação recebida é organizada no nosso cérebro. Falta de concentração, dificuldade de raciocinar e memorizar conteúdos são outras consequências. Ou seja, péssimo para os vestibulandos.
- Quem dorme mal acorda sem disposição, de mau humor, o que prejudica o resto do dia - diz.
O sono da tarde, a chamada sesta, também deve ser evitada. Ao criar esse hábito, o corpo fica condicionado a descansar nesse horário. E, em provas realizadas à tarde, como o Enem, o estudante pode ter seu rendimento prejudicado.
Quando me deito, não consigo dormir, a cabeça não para (Jade Alfradique)
- Será exigido intenso raciocínio, que pode ser perdido por conta da sesta.
Para melhorar a qualidade do sono, Ito dá algumas dicas. A primeira é a prática de exercícios físicos, de preferência atividades aeróbicas, pelo menos três vezes por semana.
Os energéticos e bebidas cafeinadas (como Coca-Cola e café) são itens proibidos, pois apenas postergam a vontade de dormir, e o preço é pago no dia seguinte.
Alimentos como leite, cereais e frutas secas auxiliam a ter um sono melhor, assim como os carboidratos. Criar o hábito de dormir sempre no mesmo horário também ajuda, pois condiciona o corpo.


Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/educacao/vestibular/mat/2011/06/17/noites-maldormidas-dificultam-aprendizado-a-sesta-pode-ser-vila-no-vestibular-2012-ou-no-enem-2011-924706226.asp#ixzz1SqGLllBd 
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21 de jul. de 2011

A cabeça como salvação



Nenhum computador é igual a ela, diz o cientista Nicolelis


Na introdução de seu livro Muito Além do Nosso Eu - A Nova Neurociência Que Une o Cérebro e Máquinas, o médico e neurocientista paulistano Miguel Nicolelis, de 50 anos, que se apresenta dia 7 de julho na 9.ª Flip ao lado do filósofo Luiz Felipe Pondé, com mediação de Laura Greenhalgh, editora-executiva do Estado, deixa claro que não pesquisa o cérebro humano para compará-lo ao computador. Nenhuma máquina jamais conseguirá ser como ele, afirma. A neurociência do século 21, garante, terá de se "libertar de seus dogmas atuais e abraçar, sem hesitação, a noção de um cérebro ativo e participante".
Considerado na década passada um dos 20 maiores cientistas do mundo pela revista Scientific American, Nicolelis lidera um grupo de pesquisadores do Centro de Neurociências da Universidade Duke, de Durham, Estados Unidos, para desenvolver próteses neurais destinadas a reabilitar pacientes que sofrem de paralisia corporal. Ele e sua equipe descobriram um sistema que permite criar braços robóticos controlados por meio de sinais cerebrais. Por telefone, de Durham, o professor concedeu uma entrevista ao Estado, em que falou de suas pesquisas e do livro, já à venda.
Futuro. Há 27 anos pesquisando o funcionamento da mente e desde 1994 nos EUA, onde dá aulas, Nicolelis está preocupado com a democratização do ensino e o uso da ciência, tendo proposto um programa de 15 metas para a capacitação do Programa Brasileiro de Ciência Tropical, entre elas a criação da carreira de pesquisador científico em tempo integral nas universidades federais e o recrutamento de pesquisadores estrangeiros dispostos a se radicar no Brasil. Mais conhecido como pesquisador de próteses neurais, Nicolelis tem estudado doenças como esquizofrenia, epilepsia e deficiência de atenção. Ele fala de algumas em seu livro, mas trata especialmente do avenir das pesquisas cerebrais. No futuro, diz ele, será possível conversar com uma multidão em qualquer parte do planeta sem necessidade de digitar mensagens no computador ou pronunciar uma única palavra - apenas por meio do pensamento. Não será por transmissão telepática, acrescenta, mas por meio de uma nova versão da internet, a "brainet" - cérebros se comunicando como no melhor dos filmes de ficção.
Nesse alucinante mundo novo, o poder dos relâmpagos cerebrais vai provocar uma tempestade. O cérebro, capaz de controlar tanto robôs como nanoferramentas, será capaz de conhecer sensações que hoje parecem impossíveis, como experimentar o toque na superfície de outros planetas sem sair de casa. No livro, Nicolelis também presta homenagem aos visionários pesquisadores que morreram ou se deram mal ao experimentar no próprio corpo drogas para estimular a atividade elétrica no cérebro, como o filósofo e escritor americano John Cunningham Lilly (1915-2001), retratado no filme Viagens Alucinantes (Altered States, 1980), de Ken Russell, em que o ator William Hurt interpreta o papel do neurocientista que explora os mistérios da mente - ele teve a sensação de navegar no próprio cérebro e viu populações de neurônios corticais disparando em uníssono, segundo Nicolelis, que nunca embarcou nessas viagens científicas sem passaporte.
"Há uma longa tradição de autoexperimentação de drogas e houve até quem injetasse potássio nas veias, morrendo em seguida, ou usasse curare (composto orgânico tirado de plantas) e visse coisas interessantes como o cérebro criando um modelo de mundo, mas acredito mais na capacidade que tem o cérebro humano de criar simulações elaboradas da realidade, como defende o físico israelense David Deutsch ou o evolucionista britânico Richard Dawkins", afirma Nicolelis.
Robôs. O advento de novas tecnologias tem acelerado a remodelação desse mundo e provocado, como há milhares de anos, transformações morfológicas e fisiológicas que levam a novos processos mentais. Nicolelis implanta chips em cérebros de macacos e tem obtido resultados surpreendentes em suas pesquisas de captação e digitalização dos sinais elétricos emitidos pelos neurônios dos primatas. Uma macaca Rhesus conseguiu, dos EUA, movimentar um robô no Japão apenas com o pensamento. "Isso não quer dizer que a tecnologia seja uma ameaça aos seres humanos, pois as máquinas não podem computar a mente nem reproduzir o pensamento humano", esclarece.
A aplicação prática de novos métodos, como a dos implantes de chips para estimular o cérebro dos portadores do mal de Parkinson, está revolucionando a medicina. "Na Europa, há uma tendência a exagerar, a dizer que seremos substituídos por computadores, mas tudo isso é balela", argumenta o cientista, formado em Medicina pela USP e doutorado em Fisiologia Geral sob orientação do célebre César Timo-Iaria, homenageado logo nas primeiras páginas do livro, um cruzamento híbrido de autobiografia e ensaio científico, que anuncia novas ferramentas para ajudar o homem no futuro.
Novo corpo. Uma dessas ferramentas é uma espécie de avatar que poderá permitir a um tetraplégico andar por meio de comandos cerebrais enviados a um exoesqueleto, como no popular filme de James Cameron. "Ele teve esse sonho em 2007 e publicou na Scientific American", lembra o neurocientista, que também fala no livro de outros experimentos extracorpóreos como o desenvolvido pelo neurocientista sueco Henrik Ehrsson. Ele registrou experiências com voluntários capazes de "existir" fora de seus próprios corpos, como num transe mediúnico descrito no século 18 por outro sueco, o místico Emanuel Swedenborg (1688-1772). "Desconheço as experiências de Swedenborg, mas me encontrei com Ehrsson em Estocolmo e me ofereci como voluntário", revela.